O Impacto da ‘não’ mobilização aglomerada no sertão

Já parou para pensar sobre quais seriam os impactos da ‘não’ mobilização aglomerada no sertão que promovemos semestralmente?

 

Desde 2014, a cada semestre, o LIVRES realiza programa de imersão e mobilização de alto impacto social em comunidades com baixo IDH, desassistidas social, emocional e fisicamente no sertão do Piauí. Reunimos centenas de voluntários, de diversos setores e habilidades, para servirmos a essas populações com atividades de saúde e bem-estar, cidadania, cultura e lazer, cursos profissionalizantes, oficinas criativas, palestras, atividades de desenvolvimento e formação para crianças, além de atividades de relacionamento social saudável.

 

Com o coronavírus, nossas ações, que envolviam grandes aglomerações em locais sem estrutura de saúde, precisaram ser paralisadas. Não poderíamos colocar em risco, nem os voluntários, e muito menos essas comunidades sertanejas que vivem no polígono das secas em condições muito desafiadoras. 

 

Hoje, nos encontramos em um cenário ainda maior de desigualdades no Brasil. Tem sido muito importante grandes empresas e organizações assumirem compromissos explícitos de solidariedade, responsabilidade para com o próximo e respeito aos direitos dos povos tradicionais. Infelizmente, esses povos, dos quais pertencem também os quilombolas e sertanejos, têm processos históricos de violações, pobreza, genocídio, e quase nenhum acesso às políticas públicas.

 

Enfrentam problemas de habitação, falta saneamento, luz elétrica e vias de acesso aos seus locais de moradia comprometidas. São ainda uma das populações mais violadas quando se pensa em direitos à saúde, à educação e à assistência social, pois os equipamentos sociais que deveriam suprir essas demandas são inexistentes ou escassos.



Segundo dados do Comitê Oxford para Alívio da Fome, a população quilombola enfrenta a subnotificação dos casos do coronavírus pelas autoridades sanitárias. Sem água, aparelhos públicos de saúde e infraestrutura para cuidados básicos, a taxa de letalidade entre os remanescentes de quilombo é de 11,09%, mais que o dobro da média nacional, que fica em 4,9%.

 

Nossas equipes que se encontram em atividades de socorro recorrente a essas famílias têm testemunhado, todo dia, essa realidade. Que não é de hoje, e é por isso que o LIVRES atua nessa região promovendo metodologias e tecnologias sociais de alto impacto de transformação social. Com a pandemia, temos reforçado as ações de assistência com a distribuição de máscaras, água potável e cestas básicas com o apoio imprescindível de parceiros que têm confiado em nosso trabalho, vendo efetivamente os resultados alcançados.

 

Muitos voluntários têm nos procurado. Muitos querem ardentemente servir às pessoas em suas necessidades integrais conosco, contudo, infelizmente, estamos impedidos de recebê-los e não convém que venham de suas cidades. É verdade que gostaríamos muito e precisamos dessa alegria, força e solidariedade… esperamos que logo as edições do Impacto Sertão Livre possam ser retomadas.

 

A não realização das edições do Impacto têm um efeito negativo, sim. Quando não podemos nos reunir em uma força de voluntariado e parceiros prestando diversos serviços socio-humanitários naquela região, deixamos de promover transformação e levar esperança para as famílias que se encontram em situação de extrema pobreza. As comunidades tradicionais são das mais impactadas negativamente.

 

Com o projeto, promovemos milhares de atendimentos de saúde, distribuímos medicamentos, realizamos ações de cidadania para que as pessoas tenham acesso a seu registro de nascimento e RG, fortalecemos a cultura e as lideranças locais, promovemos cursos profissionalizantes e oficinas que criam oportunidades de inserção no mercado de trabalho local, fomentamos a economia, pois buscamos adquirir todos os recursos necessários à realização do projeto com fornecedores locais, sem falar nos grandes eventos de cultura e lazer todas as noites, na praça pública, abertos ao público.

 

Da ordem de valores, a ‘não’ mobilização aglomerada no sertão deixa de fomentar R$400 mil reais em valor investido nas localidades a cada edição do Impacto Sertão Livre, entre recursos e mão-de-obra. E da ordem do intangível, a empatia, a amizade, os relacionamentos, a autoestima e a esperança restauradas. Não tem preço.

 

Autor: Clever Murilo Pires

Referências: 

https://www.oxfam.org.br/blog/entenda-como-a-pandemia-de-coronavirus-afeta-as-comunidades-tradicionais/ 

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